De palavra, enfim
     

O fio que se parte

A arte que se afia

A ilha em que se exila

O zelo que aniquila

A lima que arremata

A faca em que se pisa

O nada que se almeja

A queixa em que se afoga

A roda em que se arrasta

A rota em que se perde

A pele em que se escreve

O verso que anoitece

O fim que resplandece

A prece em que se sangra

O mantra que se esquece

A voz que silencia

O dia em que se acena

A cena em que se fia

O fio que se parte

E a arte que afia

A tarde que se adia



Escrito por Maurício Guilherme Silva Jr. às 21h33
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Madrugada

o metal da insônia
abre a carne da noite

os pés tingem de vida
estilhaços de vidro

as mãos guardam a rota
de outra nau submersa



Escrito por Maurício Guilherme Silva Jr. às 16h25
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À margem

Com os pés sob a água,
alivia torpezas.

Desfolhos de alma
sobre lodo e silêncio.

Dor corredia
a se cravejar de feixes.

Desejo aleivoso
de cascalho e sol.



Escrito por Maurício Guilherme Silva Jr. às 16h22
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Conto feliz em três vocábulos

Paul, John voltou.



Escrito por Maurício Guilherme Silva Jr. às 16h05
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Conto triste em três vocábulos

Chegou o elevadoooooooooooorrrrr!



Escrito por Maurício Guilherme Silva Jr. às 16h03
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5

Havia homens no deserto. E deserto nos homens. Todos ali, na Favela do Amparo, sabiam conjugar, como poucos, o verbo "suportar". Até ele, Pirueta, aprendera a sorrir. E olha que seu desertinho particular cismara de aparecer já nas primeiras travessuras, viu? Suado e com a bola nas mãos, sonhava apenas, no fim daquele dia de esforços mil, com o beijo molhado, a janta quentinha, a cama-castelo mais que supermegalegal! Ao invés de querências, porém, fora o primeiro a perceber que a mãe, sempre brincalhona, aprontava outra das suas. Deitar no chão da cozinha e se lambuzar de ketchup?! Ela e suas maluquices!

 

*Quinta narrativa do livro Cem chamas, a ser lançado em breve.

 

 



Escrito por Maurício Guilherme Silva Jr. às 18h15
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A musa

Era bela,
a mais bela.

No dia ímpar,
apaixonou-se.

(Todo espelho do mundo
transmutou-se em vidraça.)



Escrito por Maurício Guilherme Silva Jr. às 18h10
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O barco

Um cisco
em rota
azul

Qual seja
a direção
do leme

Qual seja
a solidão
que o reme



Escrito por Maurício Guilherme Silva Jr. às 17h47
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Babel

Livros como touros
em cena:

 

Livros como gotas
no vidro:

 

Livros como dentes
no sangue:

 

Livros como beijos
de urânio:

 

Livros como rosas
perdidas:

 

Livros como lenha
de seiva:

 

Livros como carros
sem rota:

 

Livros como senhas
em versos:

 

Livros como circos
senis:

 

Livros como vinhos
e porcos:

 

Livros como almas
infláveis:

 

Livros como pele
de homens:

 

Livros como dias
inteiros:

 

Livros como peso
e ranhura:

 

Livros como olhos
inversos:

 

Livros como carne
estirpada:

 

Livros como ritos
noturnos:

 

Livros como rios
vermelhos:

 

Livros como poucos
invernos:

 

Livros como cordas

e pulsos:

 

Livros como nozes

e lixo:

 

Livros como ordens

de pluma:

 

Livros como muros

de nuvem:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Livros como portas

cerradas.



Escrito por Maurício Guilherme Silva Jr. às 17h28
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JN

O mesmo boa noite.
A mesma retina.

O mesmo consenso.
A mesma carícia.

O mesmo disfarce.
A mesma planície.

O mesmo silêncio.
A mesma azia.

O mesmo desejo.
A mesma gastura.

O mesmo boa noite.
A mesma retina.

A mesma retina.
A mesma retina.

A mesma retina.
A mesma retina.




Escrito por Maurício Guilherme Silva Jr. às 20h10
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Luzia

Esperava o amor.
Na fila.
Na festa.
Na praça.

De tanto esperar,
a fila passou,
a festa acabou,
a praça inundou.

Não via Luzia
que amor luzidio
não gosta de fila,
não brinca na festa,
não dorme na praça.

Luzia na fila.
O amor na calçada.
Luzia na festa.
O amor da enseada.
Luzia na praça.
Na lua, o amor.

É a vida, Luzia.
Na dança dos dias,
amor fura fila,
amor faz a festa.
amor monta praça.



Escrito por Maurício Guilherme Silva Jr. às 14h38
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A primeira vez

Tudo vermelho.

Como sempre imaginara
seu coração.



Escrito por Maurice às 15h03
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Canção da areia

Não há pés que me marquem
a sílica e o baile.

Segredo passos
como quem veste medos.

Com o Mar,
me canso de audácias.

Com o Sol,
me reparto em várias.

(Na casa de vidro,
celebro a lástima imprecisa
do Tempo.)


 



Escrito por Maurice às 14h58
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Casa de sexo

O corpo é a alma
do negócio.

Escrito por Maurice às 11h50
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Celebridade instantânea

A mãe da modelo famosa
guarda as cinzas da filha
num potinho indiano,
brinde de Caras.


Escrito por Maurice às 11h21
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O coveiro

Num repente,
das mãos lhe cai
a pá.

Jamais soube que,
finalmente,
construíra o próprio
lar.

Escrito por Maurice às 13h12
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Fora da lei

O Opala parou
na esquina combinada.

Tudo perfeito.

Com exceção da Lua,
inconvenientemente cheia.

Escrito por Maurice às 00h20
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Traição


Ao entrar no quarto, encosta as muletas, senta-se na cama, respira o silêncio e liberta os olhos. Nas retinas, a imagem gasta de roupas sobre o chão frio: vestígios da noite última, quando o amor, sem que soubessem, despedia-se afoito. Em sua mente, como nos jornais de TV, fatos da semana anterior: o carro, os pés dela sobre o console, a paz, a curva, o fogo, a vasta inconsciência. Agora, apenas seus olhos, e o que mais lhe restara: o quarto, a alma, objetos e sombras. Ela o deixara, como a lua ao sol desavisado, e, à forma de Poe, para “nunca mais”. Lasciva, inteira, definitiva, entregara-se, na noite imensa, ao teso deus da eternidade.



Escrito por Maurice às 15h39
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